Padre Cícero Machado

Em 12/09/2014 às 16:08h

Arranque primeiro o Joio

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Nós temos acompanhado nestes últimos dias tragédias na humanidade difíceis de entender. Nós pudemos ver no dia 17 de julho de 2014, um avião de passageiros que foi abatido, na Malásia, com 298 pessoas a bordo, quando sobrevoava o território em guerra, todas morreram. E essas 298 pessoas foram mortas porque alguém decidiu que iria matar aquela gente toda. Acompanhamos este fato doloroso estarrecidos de horror.

Em Israel a disputa por um território com a Cisjordânia tem matado muitos civis. Três crianças de uma mesma família, que brincavam na rua, morreram na mesma quinta feira dia 17, em um bombardeio israelense contra um bairro do centro de Gaza. No mesmo dia em que o avião foi abatido.

Constantemente são lançados mísseis contra bairros com pessoas inocentes. O ultimo ataque em um bairro matou mais de 80 pessoas. Imagina quanta dor... Quanta saudade que ficou... Crianças... Famílias inteiras que ficaram e sofrem perdas irreparáveis. E a gente vai acompanhando as reportagens, vendo quanto sofrimento foi gerado de numa maldade. 

Em nosso íntimo nos perguntamos: porque não vai alguém lá e destrói tudo isso pra acabar com aqueles agressores, acabar com essa gente má e garantir um pouquinho de paz e não ter tanta dor. Diante destes sentimentos o Papa Francisco advertiu ao final de sua visita à Coréia, destacando que as guerras estão atingindo "um nível de crueldade espantoso", Francisco afirmou que "é lícito interromper uma agressão, mas não bombardear". "Quando há uma agressão injusta, posso dizer que é lícito parar o agressor. Mas ressalto o verbo "PARAR", porque isso não significa bombardear ou fazer uma guerra". Não se pode fazer um espiral de violência.

Quando a gente consegue, apesar de toda a maldade, apesar do peso da vida, apesar das dificuldades, ingratidões, disputas, e a maldade nos assola, suportar e fazer sombra, é sinal de que somos arvores fortes.

Isso tudo parece estar muito longe da gente, porém, nas minhas visitas semanais ao povo das comunidades, estive visitando uma família. Lá encontrei uma mãe que estava com uma filha paraplégica que havia se separado do marido. Seu ex-marido simplesmente decidiu que, após a separação, sua ex-mulher não poderia se casar com mais ninguém. E numa atitude traiçoeira desferiu três tiros nas costas dela. Uma bala se alojou em sua coluna, então ela não vai mais andar. Ele foi condenado a 12 anos de cadeia e ela foi condenada a uma "eternidade" nesta terra presa a uma cadeira de rodas. Nunca mais vai andar, porque alguém decidiu que isso seria um bem para ele. Ele achou que fazendo isso ele estaria fazendo um bem para si mesmo.

Como se não bastasse, a Igreja tem discutido bastante a questão do aborto. Tem tanta gente defendendo o aborto... E defendem como sendo um grande bem... Afinal ninguém em sã consciência defende o mal para si. A pessoa que derrubou o avião e matou 280 pessoas não achava que estava fazendo o mal para ninguém.

Mas se analisarmos com atenção, acabaremos por perceber que, na verdade, o problema não está na bomba... O problema não está no míssil... O problema não está na máquina que destrói. O problema está dentro do coração humano.

Na bíblia o vocábulo "coração" aparece 876 vezes oscilando entre o bem e o mal. Hora bom... Hora mau. Nunca podemos dizer: o coração é mal, ruim, não presta... Porque, na verdade, em nosso coração crescem simultaneamente a árvore do conhecimento do bem e do mal. No Jardim do Éden, Deus utilizou duas árvores com objetivos simbólicos: a "árvore da vida" e "a árvore da Ciência do Bem e do Mal". Não respeitar o decreto de Deus referente a esta última árvore teria resultado na queda do homem (Gên 2:9, 16, 17; 3:1-24).

Esse rapaz que deu três tiros naquela moça, daqui a 12 anos ele vai sair da cadeia e vai levar a vida dele. Embora ela vá amargar a vida presa em uma cadeira de rodas. A gente não pode imaginar que Deus vai jogar esse pessoal todo no inferno. Deus é clemente, compassivo e bondoso. Jesus cristo até algumas vezes diz que vai haver choro e ranger de dentes. Mas como será isso...

Muitas vezes eu converso com pessoas que fizeram o aborto. Elas explicam o aborto de uma maneira muito clemente também. - Ah, eu fiz porque era muito jovem, mocinha, minha família não ia aceitar, porque eu não tinha como criar, eu não tinha trabalho, então como é que iria criar essa criança... E tem inúmeras justificativas. Mas o fogo que essa pessoa vai queimar nesta vida...

É comum quando você encontra com essa pessoa, 30 anos, 40 anos depois, e perceber aquele fogo do pecado, a dor, um peso na consciência... A pessoa não consegue desgarrar daquele mal que fez e confessa várias vezes uma tragédia. Eu falo: - Minha filha, não confessa mais isso, Deus já te perdoou. Deus é misericordioso. Às vezes falo em vão, porque aquela mulher não consegue digerir o mal que fez e assim lateja o mal por toda vida naquele coração.

Vimos também no noticiário que pegaram um rapaz roubando, arrancaram as suas roupas o amarraram em um poste e deram uma coça nele. Acharam que resolveram o problema do mal que ele fez fazendo um grande mal para ele. Todos se sentiram bem com isso. Mas se Deus tratasse a gente assim, não haveria poste que desse...

Somos cruéis. Por vezes duros. Intolerantes. Quando a gente começa a dividir entre amigos e inimigos. Entre o bom e o ruim. O resultado é a intolerância. Jesus fala que o inimigo colocou uma semente ruim no meio do trigo. Os dois vão crescer. O que é ruim é pra a gente jogar fora. É preciso ter a noção mais forte do bem.

Depois Jesus fala que vai queimar na Geêna do inferno. Não pensemos que nós vamos para o inferno, não vamos! Porque Deus não vai mandar. Deus é pai bondoso. Todo mundo repete isso, já é um jargão popular. Jesus diz: E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? ... Ou, também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? "Quanto mais Deus". Então quando Jesus cristo diz aqui: vai queimar no fogo, vai queimar nesse fogo aqui. É aqui, é dentro do coração é na cabeça, consciência pesada, tudo isso.

O bem e o mal em nosso coração. O joio e o trigo. "Quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu...  'Um inimigo fez isso' respondeu ele..." (Mt 13,26.27). Deus plantou em nosso coração o trigo, tudo bom, alguém colocou o mal lá, talvez sejamos nós mesmos quem o colocamos. Nós somos co-criadores da vida. Sabemos muito bem dividir em nossa vida o bem, e o mal. Amigos e inimigos. Aos amigos abraços. Aos inimigos, distância, ou acabamos com eles. E isso está em nosso coração.

Quando a gente vê uma pessoa fazer um mal tão grande brota em nós uma indignação.

Ele diz também que o bem é uma sementinha do tamanho de um grão de mostarda. E ela cresce e faz uma sombra imensa. Lembrando que a gente só pensa na sombra. É preciso lembrar que aquela árvore que está fazendo a sombra está suportando um sol quente. E ela ainda assim está fazendo sombra. Isso, em última análise, é a semente do bem no nosso coração.

Quando a gente consegue, apesar de toda a maldade, apesar do peso da vida, apesar das dificuldades, ingratidões, disputas, e a maldade nos assola, suportar e fazer sombra, é sinal de que somos arvores fortes. Quantos conseguiram suportar cinco ou seis filhos sozinhos. Alimentou, deu educação. E quanta gente que na bondade, apesar dos bombardeios da maldade vai seguindo seu caminho fazendo o bem. Somos trigo. Para ser chegar a pão é preciso ser triturado. Deus acredita nesse trigo que com um pouquinho de fermento faz com que a gente seja melhor, se transforme, cresça.

Dentro do nosso coração é preciso despachar a maldade. E mesmo que tenhamos vontade de praticar o mal, saber que Deus é clemente para conosco. Porque o mal que a gente faz com os outros, vira fogo que dói em nós. Não adianta fazer o mal para os outros achando que vai ficar tudo bem. Quem faz o mal certamente o carregará para o resto da vida, porque o resto da morte apenas a Deus pertence. O inferno pode estar mais perto de nós do que imaginamos.

A pior notícia que a gente pode receber na vida é ouvir: "você vai ficar aí, na terra, enterrado, por toda a eternidade". Porque quem faz uma maldade do tamanho de 298 mortes, ou a expulsão de uma vida do útero, ou condenar uma pessoa a uma cadeira de rodas por toda a vida, já está com o coração enterrado e não consegue ver mais nada. Jogou o trigo fora e ficou com o joio. E há de se alimentar dele.

Não podemos negar que às vezes somos cruéis, às vezes duros, às vezes maus, às vezes intolerantes, mas que o bem fale mais alto, e que voltemos atrás. Que a gente consiga dizer ao nosso coração: - você é bom e a gente pode fazer o bem. Que Deus é bom e ele vai nos ajudar.

Que seja assim entre nós.


Autor: Padre Cícero Machado


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