Padre Cícero Machado

Em 20/08/2013 às 10:24h - Atualizado em 20/08/2013 às 10:27h

Ouvir a voz do Coração

Na miserável condição da raça humana procurando o céu.

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A princípio quero me ater ao texto de Deuteronômio 30,10-14 e, especificamente, à exortação de Moisés ao povo de Deus. Ele pede que o povo pare de procurar a Deus nos altos dos céus ou nas profundezas do mar. É quase uma súplica ou um lamento, bastante até justificável. Ele que atravessou o deserto. Fugiu da morte nas mãos do Faraó. Salvou uma nação inteira na fé de que Deus caminhava com ele. Sentia a voz de Deus em seu coração na dor do povo escravizado. Mas percebia também que o seu povo procurava a Deus em tantos lugares: nos ídolos, nos bezerros de ouro, no abandono dos mandamentos, então apenas dá uma ordem: "ame o senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, obedeçam aos mandamentos e então encontrarão a Deus, pois ele estará em tua boca e em teu coração".

Milhares de anos se passaram e parece que a coisa não mudou muito. Ainda hoje, vemos nosso povo, o povo de Deus, ainda procurando Deus em tantos lugares: Espiritismo, (e olha que o espiritismo nega totalmente a necessidade da presença de Deus) Vai para as adivinhações, curas milagrosas, tarôs, cartomantes, numa busca desesperada de Deus. Uma prova cabal de um coração cego e surdo.

Moisés nos fala de um Deus invisível, que apenas poderá ser sentido na leitura da realidade e com os olhos do coração. Diferente da situação dos homens dos nossos dias. Que tiveram a experiência sensível e tátil de Jesus. Homem que deu uma vida inteira: seu coração, sua alma, toda a sua força, seu entendimento, seu corpo e seu sangue, ou seja, a presença viva do próprio Deus.

São Paulo ousa dizer que este Homem é a cabeça da Igreja que é o seu corpo, cabeça alma e coração (Cl1, 15-20). Para Paulo a igreja mostra o invisível Cristo, que mostra o invisível Deus (Cl 1,15). Quem não vive a visível Igreja acaba por viver sem muito entendimento das coisas invisíveis.

É tão comum ouvirmos por aí que fulano não tem cabeça, é um descabeçado, não escuta ninguém, não sabe discernir o bem do mal, faz tanta bobagem... Enquanto está sem cabeça ainda está bom, o pior é quando ouvimos dizer que fulano não tem coração. 


"Quem não vive na Igreja acaba por viver sem muito entendimento das coisas de Deus".

Creio que São Paulo tenha razão. Ele já fora um descabeçado e sem coração. Fala com propriedade do alto de sua experiência. A sua afirmação de que Cristo é a cabeça da Igreja quase quer dizer que quem vive sem a Igreja, não tem cabeça, se torna um descabeçado, ou um desalmado, ou sem coração.

Isto me lembra daquela conversa de Jesus com um especialista em leis LC 10, 25ss. Na ocasião, ele pergunta a Jesus o que deveria fazer para receber em herança a vida eterna. Ele mesmo responde que deve amar a Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua força e com todo o seu entendimento, e mais, ao próximo como a si mesmo. Jesus acrescenta: "Sabe o que fazer, então faça!" (Lc 10,25-37)

Na verdade quando vivemos com a nossa própria cabeça pensamos somente em nossos próprios problemas e dores, esquecemo-nos das dores dos outros. Talvez por isso que o especialista em leis venha perguntar a Jesus quem seria o seu próximo, já que pensa somente em si mesmo e em alguma herança. Jesus lhe responde com a estória de um acidentado, vítima de um assaltante, descabeçado, sem coração e desalmado que arrancou tudo do pobre homem pelo caminho e o largou ferido e machucado. Jesus conta que passava por ali um sacerdote ensimesmado, preocupado sabe-se lá com o que. Olhou, viu e seguiu adiante pelo outro lado, quem sabe correndo para chegar depressa a Igreja... Depois passou por ali um levita, teólogo, com a cabeça presa em suas próprias reflexões, olhou e foi para o outro lado talvez com medo de esquecer o fio condutor de suas leis. Mas passou também um samaritano que viu e cuidou, talvez precisasse ele ser também notado já que era também acidentado, sim porque a sociedade judaica machucava muito os samaritanos, os tratava como cães a beira do caminho. Ousavam chama-los até de porcos, e não se podia dirigir sequer a eles para uma conversa, ou sequer tocar neles. Este "cão", o samaritano, viu um ser semelhante precisando de ajuda. Falo semelhante no sentido literal da palavra. Creio que o ajudou não porque seria o "bom" samaritano e nem porque quisesse, mas porque também era ele próprio o ferido e maltratado. Os chamavam de cães e de porcos, animais impuros. Ele sentiu a dor do que estava no chão. Em última análise podemos dizer que o samaritano sentiu compaixão, talvez porque ali também fosse o seu lugar. Penso que Jesus tenha usado a pessoa certa em sua estória na  ajuda ao acidentado.

Lembro-me na porta da Igreja em que sou pároco. Lá aconteceu um mistério (porque eu acredito em mistérios) algo revelado que não sei explicar. O seguinte: A equipe de liturgia resolveu ilustrar o espaço celebrativo com uma pessoa fantasiada de alguém flagelado e pedindo esmolas. E eu como todo "bom" sacerdote, antes de começar a missa, fui para porta da Igreja receber com uma calorosa acolhida o meu rebanho que lá ia para atentamente me ouvir. Eis que cheguei à porta sem olhar para o lado, afinal era eu o sacerdote ou levita (como preferir), ensimesmado no problema da pregação que deveria fazer para aquelas centenas de pessoas que foram ali para escutar da minha teologia. Eu não percebi que nos cinco degraus dos átrios da Igreja se encontravam não um, mas três flagelados: um membro da equipe de liturgia fantasiado de mendigo, um leproso e um mendigo (que nem a equipe de liturgia sabia de onde viera). Quisera eu que tivesse sido apenas eu que estava preocupado só com o meu umbigo, mas centenas de fieis que por ali passaram cheirosos e perfumados também estavam envolvidos tanto com os seus próprios problemas e a busca desesperada de Deus lá dentro da Igreja que olharam e passaram para o outro lado.

Olhando este episódio da porta da Igreja me arrisco a dizer que na verdade somos nós os flagelados que precisamos de Ajuda. E nem sou eu quem diz isso, pois se no início da conversa com Jesus a pergunta do teólogo era: quem é o meu próximo? No final da conversa a pergunta de Jesus ao teólogo era: quem foi o próximo do acidentado? Jesus inverte os papéis e transforma a pergunta em resposta para que possamos entender que é preciso ouvir a voz do coração na acolhida da miséria do irmão, no mandamento do amor que é o cuidado que devemos ter uns com os outros, sentir o seu coração bater e acolher a sua miséria.

Jesus chama a esta voz de Misericórdia e compaixão, isso mesmo: aquele friozinho que dá no coração quando vemos alguém sofrendo qualquer dor. Aquele mesmo friozinho que o samaritano sentiu e movido por este friozinho cuidou do doente.

A experiência de Deus que tem Moisés, São Paulo e Jesus nos diz que não é preciso procurar Deus em tantos lugares uns mais funestos e duvidosos que o outro. Que ter um coração pleno e seguir o mandamento do amor a Deus e ao próximo depende de termos a cabeça de Cristo, sua alma e seu coração. Mas também não precisamos fazer força. A força para o bem estará em nós tanto mais nos devotarmos ao compromisso para o bem, que também aprendemos no compromisso com a Igreja que é o corpo de Cristo que é a cabeça da Igreja. Olharmos mais para a miséria do outro e não tanto para nossa própria miséria, é condição para perceber que somos igualmente miseráveis e que precisamos uns dos outros. Não andarmos tanto ensimesmados. Mas que possamos permanecer ao lado dos que estão à beira do caminho que trilhamos todos os dias. Olhar para o lado, permanecer no mesmo lado, gastar umas moedas, e um pouco te tempo, quem sabe assim, encontraremos um flagelado. Ter a graça de ser o seu próximo. Então, finalmente, encontrar a Deus e findar a miserável condição da raça humana que procura o céu.


Autor: Padre Cícero Machado


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