Padre Cícero Machado

Em 03/10/2013 às 19:33h - Atualizado em 03/10/2013 às 19:34h

Os Apertos da Vida

A Porta Estreita (Lc 13,22-30)

Versão para impressão
Enviar por e-mail
Conheça o autor

Dentro dos evangelhos podemos encontrar algumas conversas de Jesus com vários tipos de pessoas: Fariseus, doutores da lei, discípulos, gente do povo, etc. Crivam Jesus de perguntas. Na maioria delas Jesus percebe o fundo da pergunta, ou é ignorância ou é malícia. Um diálogo que chama a atenção é este em que Jesus esta atravessando um povoado e alguém do povo lhe pergunta se são poucos os que vão se salvar (Lc 13,22-30). Ele responde que não é fácil, é preciso que se passe por uma porta estreita. É bom entender que ele estava passando por um lugarejo, um povoado. E nestes lugares geralmente moram pessoas mais simples. Tem outro texto em que Jesus fala também para os ricos sobre esta mesma dificuldade de se entrar no reino dos céus. Na ocasião, ele responde que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus (Mt 19,24). Ao ver este texto o pobre tem a tentação de dizer: "eu sou pobre então estou salvo". Não é bem assim. Dá para concluir que a salvação não está ligada a condição social. É muito comum que na hora do aperto tanto um quanto outro, acaba correndo para Deus. Também não é assim que funciona.

Não existiu ninguém neste mundo que tenha passado por mais apertos que este Homem chamado Jesus.

Porque Jesus responde assim? Porque não teve ninguém neste mundo que tenha passado por mais apertos que este homem. Ele nasceu no meio do caminho, praticamente na rua, numa manjedoura no meio dos bois. Quando tinha três anos, o imperador Herodes mandou que se assassinassem todos os meninos com menos de três anos. José coloca o menino no lombo de um burro e foge com Maria para o Egito (Mt 2,13-23). Acompanhando os evangelhos, várias vezes armaram ciladas para ele (Mc 12,13-17; Lc 20). Outra vez depois de ter entrado na sinagoga num dia de sábado e falado que o Espírito do Senhor estava sobre ele, os sacerdotes e doutores da lei o levaram para o alto de um precipício para lança-lo lá de cima (Lc 4,29-30). No final da sua vida passou pelo maior dos apertos, tristeza, decepção, sangue e dor. Mas ele conseguiu passar por todos estes apertos. Venceu todos, o pior deles foi a porta estreita da morte, e deixou a certeza de que na vida passaremos por aflições, mas tenhamos fé, porque ele venceu o mundo (Jo 16,33), e uma promessa de que depois deste sofrimento é banquete e festa (Lc 13,29).

Quantos apertos que nós passamos. Quantas vezes colocamos a mão na cabeça e clamamos: "Ai meu Deus estou passando por tanto aperto..." O perigo neste momento é correr para as portas largas.

São Paulo em Hb 12,12-13 nos diz: "firmai as mãos cansadas e os joelhos enfraquecidos; acertai os passos dos vossos pés". É importante perceber que quando São Paulo fala em firmar as mãos e os joelhos ele não está falando de rezar. São Paulo é profundo conhecedor da cultura grega e lá surgiu o atletismo. No inicio de uma corrida se mantem os joelhos firmes na posição de impulso.

Sabemos que na hora do aperto o mais difícil é manter as pernas firmes. Na verdade o que bambeia primeiro são as pernas. Seja por uma noticia de surpresa, seja por um acontecimento inesperado com a saúde nossa ou de alguém que amamos. Nossas pernas logo bambeiam. O perigo é no desespero correr para procurar as portas largas.

No âmbito familiar é que as coisas se apertam mais. A pessoa casa. O corpo é perfeito. Tudo no lugar. Mas o tempo passa. As coisas já não estão tão firmes. Os desafios aumentam. O amor fica comprometido. Aparecem desejos de autoafirmação. A tendência é procurar portas largas como largar a família ou tentar uma vida dupla para atender aos apelos de necessidades físicas com outras pessoas, esquecendo-se de compromissos até sagrados que deveriam ser preservados como os juramentos de fidelidade, lealdade e cumplicidade na alegria ou na dor. Aparecem então muitas portas de fuga. Cristo nos diz que isso é uma fuga para dor e sofrimento, choro e ranger de dentes (Lc 13,28). E isso vai para a família toda. Sofre mulher, sofre marido, sofre filhos e até os amigos. Conhecemos experiências de muito choro.

No âmbito da juventude, as dificuldades são a falta de oportunidades para os estudos, trabalho, famílias desestruturadas. É comum a fuga para as drogas, os roubos, os vícios, a vida fácil, e busca do prazer desordenado. É hora do aperto. Quando deveria estar com os joelhos firmes vai procurar o que não deve. Aí novamente há choro e ranger de dentes, e sofrem todos novamente. Ao contrário também encontramos jovens que viveram as mesmas situações de desamparo e que mantiveram os joelhos firmes e conseguiram vencer a corrida. Quantos que saem da roça sem eira nem beira. Sem sequer saber ler, e constroem a vida na justiça e na honestidade.

No âmbito da sexualidade, encontramos meninas tão jovens que engravidam precocemente, e pior, acidentalmente. A primeira expressão numa conversa é: "estou passando por um aperto". A fuga para a porta larga é o aborto. E isso não se aplica somente as jovenzinhas, chega também ao nível dos casais. Há de se escutar expressões do tipo: "não tenho como criar uma criança agora, não tenho condições..." Aborto novamente.

No âmbito da Igreja e da prática da religião, o que podemos notar é que as portas das seitas estão cada vez mais largas. São lojas alugadas nos comércios das cidades e lugarejos, ou qualquer garagem. Ao menor sinal de descontentamento com a doutrina da Igreja, ou por causa do padre, ou por causa dos companheiros de caminhada, ou porque se passou por um momento ruim na vida e exigem-se soluções através da religião. Quando não se encontra essa solução a fuga é para a porta larga das seitas porque lá tudo se resolve com soluções mágicas em nome de Jesus. Gera-se uma confusão desgraçada sobre imagens dos santos, virgindade de Maria, sinal da cruz, encosto de  espíritos maus, obra do "inimigo", etc.

É preciso tomar cuidado, porque para Jesus, quem não é salvo são aqueles que praticam a injustiça: vida dupla, vícios, aborto, traição à fé.  "Ele, porém, responderá: "Não sei de onde sois". Afastai-vos de mim, todos vós, que praticais a injustiça!" (Lc 13,27). Não adianta dizer que comeu e bebeu com Ele.

A pessoa que foge para portas largas a tendência é dor e sofrimento e não é depois da morte é naquilo que se fez da vida. Choro e ranger de dentes.

Haverá um dia em que teremos de passar sozinhos por uma porta. Neste dia não é preciso ter medo. Já que ele diz que é a porta das ovelhas (Jo 10,7) e Ele é bom e misericordioso. Quem passou a vida escutando a sua voz certamente conhecerá o caminho. Apenas um pouco de coragem talvez seja necessário (Hb 12,5). Pode ser que venha a dor e o sofrimento. Para quem na vida conseguiu passar pelas dificuldades e pelos apertos com firmeza e força na fé entrará conseguirá fazer bem a passagem. Deus tem para nós um destino de felicidade. Um banquete. Depois de passar por esta última porta será preciso acreditar que também há alegria e paz para aqueles que são firmes na fé, justos nas adversidades e não buscam portas largas ao longo da vida.

Pe. Cícero Machado Ribeiro, MSC


Autor: Padre Cícero Machado


Tags relacionadas: Pe. Cícero Machado Ribeiro, MSC, Paróquia São Paulo, Muriaé

Fotos

Rua Dr Afonso Canedo, 47 Muriaé - MG, 36880-000 - 32 3722-2363 | Todos os direitos reservados a Paroquia São Paulo

Todos os direitos reservados a